Bolsonaro visto de Portugal

1. O pior inimigo do Brasil está sentado no palácio em Brasília. É o  próprio presidente eleito. Escrevo esta crónica em Salvador, entre vir  de Brasília e partir para São Paulo. E em menos de uma semana os  crimes são tantos que fica difícil actualizar. Estamos a um ritmo mais  do que diário. Bolsonaro é um criminoso horário. A cada hora, é mais  chocante para o Brasil, e para o mundo, que esta criatura tenha sido  eleita. Foi cúmplice quem contemporizou na campanha, ou não quis ver  nem ouvir, apesar de tudo o que estava na cara, e no ouvido. Mas,  pior, é cúmplice quem, depois de quatro meses e nove dias de  destruição, continua a teimar, ou acena com a legitimidade  democrática. Parceiros no crime de um destruidor em massa, serial.

O presidente de Portugal, que tratou Bolsonaro como “irmão” na posse  em Brasília, já se escapuliu entretanto de ser fotografado ao lado do  infame Moro, na Faculdade de Direito de Lisboa, apesar de a sua  presença ter sido anunciada. Imagino que hoje já não seria tão  palmadinhas-nas-costas em Brasília. Ou em Lisboa. Mas já não se  imagina Bolsonaro em Lisboa, não é? Ou alguém, fora eleitores dele,  está tão equivocado que, sim, imagina?

Gostaria de ver, ler perguntas, notícias, sobre como os governantes  portugueses estão a encarar isto. O ministro Augusto Santos Silva foi  questionado sobre aparecer amenamente ao lado de Moro, como se nada  fosse? Alguém perguntou a Marcelo porque afinal não compareceu no  encontro onde esteve Moro? Coisas que, à distância, neste périplo,  pelo Brasil, gostava de saber.

Chegámos a um ponto em que foi cruzada, sem retorno, uma linha da  diplomacia. Para além dessa linha, a diplomacia normal, dos lugares  comuns ditos em público, não se aplica, passa a ser cúmplice.

Alguns, cada vez mais, já perceberam isso. O mayor de Nova Iorque  percebeu isso, e a sua clareza firme levou Bolsonaro a cancelar a  visita. O mayor de Nova Iorque simplesmente declarou Bolsonaro persona  non grata. É isso que o mundo tem de fazer. Porque o pior inimigo do  Brasil, que está sentado no palácio presidencial, é inimigo do mundo.

2. E o mundo começou a fazer. Mais de onze mil intelectuais das mais  reputadas universidades do planeta assinaram uma carta contra  Bolsonaro. Concretamente contra o ataque inédito de Bolsonaro à  educação, que na última semana se tornou guerra mesmo. Bolsonaro  conseguiu, aliás, o prodígio de na mesma semana em que mais atacou a  educação facilitar mais o uso de armas. Entre os assinantes do  manifesto contra estão académicos de Harvard, Princeton, Yale, Oxford,  Cambridge, Berkeley, além das grandes universidades brasileiras, como  Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro,  Universidade de Brasília.

Pisei esta semana pela primeira vez a Universidade de Brasília, um  campus incrível, verde, sem separação entre cidade e universidade, sem  portão, sem muro, sem segurança. Sonho do antropólogo Darcy Ribeiro  que — ao contrário do sonho principal de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer,  planeadores da cidade — está totalmente habitado. A Universidade de  Brasília é sonho e é humana. É arquitectura e é gente. A cara de Paulo  Freire, mestre de um sonho de educação a quem Bolsonaro também  declarou guerra, recebeu-me num cartaz à entrada para o Instituto de  Letras. Pelas paredes, cartazes em defesa das ciências humanas,  devolvendo a “balbúrdia” a Bolsonaro. Porque uma das pérolas que veio  deste governo brasileiro, durante a semana, foi a de que as  universidades públicas são antros de balbúrdia, gente nua e marxismo  cultural. Entre os cartazes e graffiti contra Bolsonaro, um cartaz com  o título “A Queda do Céu”, livro já lendário do xamã ianomami Davi  Kopenawa, cartazes em defesa dos povos indígenas, corredores e pátios  fervilhando com muitos tons de pele: o Brasil.

Esta semana, o homem sentado no Planalto cortou um terço ou mais dos  orçamentos das universidades públicas e institutos federais,  estrangulando ou exterminando à partida ensino e pesquisa no Brasil.  E, quando a luta de estudantes e professores, pais e mães já saía às  ruas, foi anunciado o corte das bolsas de mestrado e doutoramento em  todas as áreas, ciências humanas e exactas, da Capes, principal fonte  de bolsas no Brasil.

3. Entretanto, todos os anteriores ministros do Ambiente ainda vivos  se juntaram, em alarme e protesto, numa frente, para além das  diferenças políticas e ideológicas. Acusaram Bolsonaro de pôr “em  prática, em pouco mais de quatro meses, uma ‘política sistemática,  constante e deliberada de desconstrução e destruição das políticas  meio ambientais’ implementadas desde o início dos anos de 1990, além  do desmantelamento institucional dos organismos de protecção e  fiscalizadores, como o Ibama e o ICMbio”, resumiu o “El Pais Brasil”.  Acusam Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles de reverterem todos as  conquistas das últimas décadas, que “não são de um governo ou de um  partido, mas de todo o povo brasileiro”. Marina Silva usou a expressão  “exterminador do futuro”.

4. Nessa altura, quarta-feira, já as ruas se tinham enchido, em defesa  da educação, de Belo Horizonte a Salvador ao Rio de Janeiro.  Secundaristas, muito jovens, defendendo os seus colégios públicos,  como o histórico Pedro II, porque o corte não atinge só as  universidades, mas sim todos os institutos federais. E universitários,  e professores. Quero acreditar que estes quatro meses foram de choque  e atordoamento, mas que as ruas que agora se enchem são o prenúncio de  uma luta nova, de algo que recomeçou no Brasil. Em 2013, quando muitas  lutas explodiram nas ruas, um Brasil ignorante, boçal, autoritário,  nostálgico do esclavagismo e da ditadura, começou a capturar a energia  do protesto e as redes sociais. Este ano de 2019 talvez seja o  recomeço de 2013 no ponto em que 2013 se perdeu. Adolescentes erguendo  livros contra gente armada.

5. Mas os próximos tempos serão duríssimos, mesmo que a luta cresça e  cresça. Educação, ciência, cultura já perderam, vão perder mais. Neste  périplo que estou a fazer pelo Brasil, entre universidades e  livrarias, só estar com livros, com debate, com quem estuda, já parece  subversivo. Então, mesmo por entre as peripécias da geringonça,  gostaria de saber se o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues,  tem alguma ideia nova para apoiar tantos professores, estudantes,  pesquisadores brasileiros, ameaçados de novos perigos. Ou a ministra  da Cultura, Graça Fonseca, num momento em que os apoios à cultura no  Brasil estão a paralisar, uns atrás de outros.

6. Lembram-se de quem, a propósito do Brasil, do impeachment de Dilma,  insistiu que não era golpe? Escrevo esta crónica por entre as imagens  do golpista Temer entregando-se à polícia.

Como o Fora Temer parece fazer parte de outra era. De perda de  inocência em perda de inocência, ou inconsciência, estamos diante do  horror. E os que são jovens agora, tão ou mais jovens que a jovem  Greta Thunberg, como os secundaristas brasileiros que há anos já  aprendem uma nova luta, cada vez mais sabem que não há outros, seremos  nós a mudar isto, ou não haverá nós. Tal como não há planeta B.

Por Alexandra Lucas Coelho

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