Editorial da Folha Sobre Produtividade no Brasil

O crescimento da economia brasileira novamente decepcionou. A alta em 2018, de 1,1%, repetiu o resultado esquálido do ano anterior e sacramentou a mais lenta saída de um mergulho recessivo já registrada em meio século.


Como a população aumentou 0,8% no ano passado, a chamada renda per capita ficou na prática estacionada. Fosse apenas uma variação cíclica da atividade, um hiato numa trajetória virtuosa, haveria pouco com que se preocupar.


A estagnação, no entanto, é o vetor resultante do desempenho econômico brasileiro nas últimas quatro décadas. Os brasileiros nascidos durante esse período, que perfazem 60% da população, ainda não testemunharam um ciclo longo e sustentável de desenvolvimento.


Quando se trata de elevar os padrões de bem-estar de uma nação ao longo do tempo, o fundamental é que a quantidade de bens e serviços produzida por pessoa empregada progrida paulatinamente na vertente das décadas. Ao final de um período mais longo, a riqueza de toda a sociedade terá crescido.


O Brasil, desde 1980, produz anualmente em torno de US$ 30 mil por trabalhador, o suficiente para figurar entre as nações de renda média. O Chile, que partiu de patamar semelhante, elevou a produtividade em 78%. A Coreia do Sul, que conseguia pouco além da metade da taxa brasileira, mais que quadruplicou o seu indicador.


Como esse suave fracasso não é algo circunstancial, como se entranha no mecanismo econômico brasileiro, é preciso buscar as suas causas profundas a fim de superá-lo.

Somos um país mal instruído. Só no final do século 20 o Brasil universalizou o acesso ao ensino primário, um atraso substancial mesmo no contexto da América do Sul.


No ensino médio, nem isso ocorreu. Há duas décadas a frequência escolar de adolescentes de 15 a 17 anos está estacionada perto dos 80%. A formação técnica e universitária, apesar da expansão recente, ainda apresenta escala modesta.


Os indicadores de qualidade e aprendizado, para todas as etapas escolares, mostram-se tenebrosos.


Somos um país violento. Mais de 60 mil brasileiros são assassinados por ano. Quase 40 mil morrem no trânsito. As vítimas frequentes, homens na sua juventude, desfalcam a força de trabalho que em breve começará a diminuir em razão do envelhecimento populacional.


Somos um país desigual e injusto. Embora tenha havido redução recente na pobreza e na disparidade salarial, em linha com o ocorrido nas nações emergentes, o Brasil continua a estar entre as sociedades mais iníquas do planeta.


Somos um país ineficiente. Embora aplique volume relativamente grande de recursos da sociedade em programas universais, como saúde e educação, o Brasil colhe resultados piores do que outras nações em condições assemelhadas.


As empresas, na média, exibem baixa produtividade a despeito da ampla teia de regramentos e subsídios destinada a salvaguardar segmentos tidos por estratégicos.


Somos um país infernal para os negócios. O emaranhado regulatório e as forças que a todo tempo incidem no ambiente das transações mercantis produzem passivos trabalhistas e tributários que, além de gigantescos, são imprevisíveis.


Por Conversa Afiada

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