Primavera do Conhecimento

Estamos em tempos de mudança. Quando milhares de pessoas vão as ruas devido a um ensejo tomar contas de suas mentes. No entanto, o primeiro passo para mudar o sistema está em entendê-lo. Olhar para a História que o constitui.


O descortínio a entender o sistema está em analizar a natureza do poder. Para isto, é preciso entender a formação da riqueza. O poder volta-se ao domínio da riqueza. Nela sustenta o seu mando. O lugar a se perpetuar.


As pessoas saem às ruas carregando cartazes e derrubando estátuas. Na postura de propor um futuro negando um passado, trazem sua inssurrência. Levantando a dúvida, se as ruas são protagonistas do novo ou conduzindo levas de ignorantes e intolerantes.


— Que poder as ruas pretendem manifestar?


As transformações precisam observar a História. Entender seu movimento. Embora fluindo em complexidade, a História é um rio que segue a um norte. Os séculos mostram que contém direção. E esse deve ver o comprometimento das ruas. Trafegar o curso da História.


Neste século 21, da Praça Tahrir a Mineápolis, não faltaram primaveras. Raiaram luminosas e foram desaparecendo à medida que caminhavam. Não conseguiram se sustentar. As suas reinvindicações não chegaram as raízes do sistema. Não afetaram o poder. Gritos inócuos sem compreenderem o sistema como ele é. A terminarem presos as meias-verdades.


Desde Maio 68 não faltaram primaveras. A ideia de revolução como categoria mais alta alcançada pela política está sempre presente nas gerações. No entanto, o sistema é velho e matreiro. Adapta-se aos reformismos, provoca mutações no capitalismo e faz as primaveras passarem.


O poder não está no chefe da nação. Está no que comanda o sistema. Aquilo que dirige o fluxo da riqueza. E assim, o poder atual se estabeleceu sobre a riqueza financeira. Os ganhos sustentados pela riqueza financeira sustentam o poder dos ricos. Um poder baseado no papel.


Uma fotografia nítida do sistema está no preto e branco da luta de classes. No andar de cima, os detentores de títulos e direitos sobre a renda e a riqueza, e na base os dependentes de empregos e circuitos de créditos. Uns a gozar de tempo livre, outros presos ao relógio da sobrevivência.


O fracasso das primaveras está em suas marchas anti-sistema terminarem reduzidas às questões das minorias, como racismo, homossexualidade e congêneres. Não discutir temas como dívida pública, domínio de bancos e do capital financeiro. Não conseguem modificar o processo de espoliação do capitalismo. Derrubam estátuas para manter antigas formas de pensar.


Devemos nos perguntar para onde o capitalismo está nos levando. Parece estar aí a nossa crise de civilização. Somos levados sem discussão. As democracias não resolvem. Os mercados financeiros praticam saques legalizados há muito tempo, provocando altos níveis de desigualdades no acesso à riqueza, no entanto, as passeatas não conseguem se contrapor a esse sistema governado por poderes invisíveis. Um assunto não resolvido que vem de tempo anterior.


A origem do momento histórico atual está em Maio 68. Nesta Primavera de Paris acontecia o primeiro momento quando intelectuais e operários se afastavam da cartilha comunista. A invasão da Hungria por tropas soviéticas em 1956 deixara uma marca definitiva. 120 anos após o Manifesto Comunista as pessoas começavam a buscar um novo caminho de manifestação social.


Maio 68 trazia uma nova ordem à construção das coisas. Uma nova bandeira subia aos céus. Neste ímpeto, diversos filósofos emergiram como Sartre, Lacan, Marcuse e outros. No entanto, não conseguiram se sobrepor ao sistema. No decorrer do tempo suas ideias foram incapazes de modificar os caminhos do capitalismo. Críticas, mas sem a capacidade de serem transformadoras. E o velho Marx sobreviveu, mas já sem a capacidade de contestar o capitalismo... e a desigualdade floresceu.


Maio 68 foi o tempo que não foi. A sua ideia de subversão total não vingou. Não engavetou Marx, nem levantou a bandeira do novo. A consequência de seu vazio foi abrir espaço para uma forma de capitalismo mais agressiva. A agenda de ganhar dinheiro sem trabalhar floresceu. Sem Marx e sem saber negar o sistema, a sociedade ficou à mercê de papéis financeiros. O capitalismo financeiro floresceu.


Desde então, a política veio morrendo em todos os lugares. Neste tempo estamos. Época interregna em que primaveras sucedem. E assim, as ruas de Cairo a Washington ficaram a retratar o Gatopardo. Os seus gritos e cartazes trazem ordens contra o sistema. No começo, com palavras de ordem a estimular as mudanças, e ao final, terminam na batida expressão ‘mudar para não mudar’.


O novo caminho não estará nas lutas contra o grande capital. Numa época interligada pela internet vê-se a Era do Conhecimento se levantar. A fazer os homens viajarem em seus imaginários. Apertarem o botão de celular a esperar o advento de uma nova ordem cósmica. Aquela que chega abrir a sua mente. Não sabemos o que somos.


Estamos diante do porvir da Primavera do Conhecimento. O novo está em cultivar símbolos sobre a folha em branco. Momento para o conhecimento transpor sua áurea iluminista para a de um acionador do capitalismo. Reinvidicar sobre a existência de uma relação entre capital e conhecimento a sobrepor a economia financeira.


Quando chegar a Primavera do Conhecimento, finalmente, a História estará a nos levar a ir além de Maio 68. Desde então, sucederam o esgotamento da classe trabalhadora, a configuração do capitalismo financeiro global, a batalha pelo meio ambiente. Ao mesmo tempo, aconteceu uma gigantesca revolução científica e tecnológica.


A História seguiu. Estamos diante de um novo entendimento. Hoje, precisamos ir além de Marx. Não se pode prescindir do autor de O Capital, mas a mutação ocorrida no capitalismo exige novas análises. Estamos em tempos de mudança na construção capitalista. Uma nova legitimidade a ser reconhecida é a sua relação com o conhecimento.


As primaveras surgem para o espírito humano despertar uma nova invocação. O momento a ser atravessado pelas ruas é o de se ir além do capitalismo como o condutor da civilização. Enquanto Marx se fundeou na relação capital-trabalho, a Era do Conhecimento está em trazer uma nova correlação. A contextualização do conhecimento como um dos promotores da História.


Estamos à espera da formulação de um novo contexto a associar o conhecimento ao capital e trabalho como formuladores da História. Mostrar a necessidade da sociedade investir em conhecimento. O capitalismo a ser entendido neste novo tempo traz a relação trabalho-capital-conhecimento.


A nova História virá na Primavera do Conhecimento. Um momento ainda a acontecer. Estamos à espera desse despertar. O aparecimento de conflitos sociais conhecimentistas estão vindo à tona. Tais como, desigualdades sociais no acesso a educação virtual, diminuição da verba destinada a Educação, perda da geração de conteúdo nacional através das privatizações.


Falta uma voz a ordenar o valor do conhecimento. Estamos diante de fazer o que Maio 68 não conseguiu. Trazer um novo personagem à História. A diferença para Maio 68 está em que a nossa época começa a ter condições de expressar o Conhecimentista. Evidenciar nele o novo personagem dos acontecimentos. O condutor a levar um país a participar da Era do Conhecimento ou ficar na periferia de serviços e revendas.


Ainda um dia, quiçá uma hora, veremos a praça ser tomada por conhecimentistas. Vozes se unindo em sua vontade de aprender e realizar coisas através da folha em branco. Reivindicando, o direito de terem uma ordem mental.


Por Melk

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