Quarks Sem Causa

A Era do Conhecimento chegou. Há uma nova História a ser desvendada. A expectativa estaria na academia abrir as portas desse novo testemunho. Mostrar o novo sentido das coisas. Isto não acontece. Deixa uma questão desafiante a ser entendida.


Estamos diante de uma nova perspectiva. Um país não pode perder sua inteligência e sua vontade. A de compreender a História diante da égide da Era do Conhecimento. O destino de uma nação não pode ficar sem proposito. Neste século 21, uma nação deve se colocar diante da presença do conhecimento ao lado do capital e trabalho, como os três elementos formadores da História.


A cada dia que o sol se levanta nesta Era do Conhecimento torna-se mais interrogativo a ausência da academia a respeito da importância do conhecimento no desenvolvimento de uma nação. Vivemos numa época de vazio. A sua conjuntura se coloca contra ideologias. É um período fragmentado. Não se vê as coisas dentro de um conjunto. O que vale é a ação individual coordenada pelo lucro. Fazer com que todos só se voltem aos próprios interesses.


O século 21 abre na Era do Conhecimento o seu novo teatro histórico. Uma apresentação cujo o ator esperado é a academia. Cabe a ela contracenar esse momento histórico. O paradoxo é que não aparece. Deixa o palco vazio. Isto é, cheio de vozes menores, que nada tem a ver com o novo período histórico. Sem Causa se tornam os revolucionários que ainda não atendem o telefone da História. Não conseguem erguer uma voz a defender a produção de conhecimento.


Neste contexto passa batido o sentido de colocar o conhecimento ao lado do capital e trabalho como artífices da construção da sociedade. É uma Era do Conhecimento mas sem o propósito de levantar o conhecimento a nível de História. Deixa-o sob a tutela dos pareceres políticos voltados ao capital e trabalho. O que importa é obter a economia sucedida.


O esperado estava em encontrar na academia a iluminação da época. A defesa de seu significado. Uma luta a respeito da secundarização do conhecimento. No entanto, nada acontece. A academia se torna a Geração sem Causa. Embora proprietária dos fundamentos da Era do Conhecimento não se apropria de sua causa.


Estamos num Mundo onde falta uma defesa ideológica a respeito do conhecimento. O descompasso diante da economia financeira é grande. Embora a riqueza oriunda da produção de conhecimento esteja a olhos vistos a sua percepção é tênue. O que movimenta a época são os seus jogos financeiros. Há uma longa jornada pela frente para o significados de educação, tecnologia penetrarem na lógica política. Ninguém ganha eleições com discursos sobre conhecimento.


Uma noção fundamental em ciência está na busca por elementaridade. Desde a Grécia Antiga, filósofos como Empédocles e Leucipo, vêm propondo a sua construção a partir de elementos como água, terra, fogo, ar e por átomos. Essa visão atomista percorreu 2500 anos e em 1969 chegamos a descoberta dos quarks. Representam os últimos constituintes da matéria. A partir deles, se constituem os prótons, nêutrons, átomos. Os quarks são a elementariedade encontrada na Natureza pela física do século 21. Entretanto, com a propriedade de estarem confinados. Os físicos não conseguem medir os quarks. A sua observação é indireta.


— Quem diria, a física acabou em Irajá – diriam os místicos.


Similarmente, poderíamos dizer que as sociedades vêm-se constituindo ao longo da História. Personagens históricos vieram tomando forma. Tais como escravos, reis, camponeses, senhores feudais, operários, burgueses, capitalistas etc. A História não é constituída por átomos, mas por pessoas exercendo funções conforme o desenvolvimento do espaço psicológico de sua época. Em vez do Universo, essas pessoas constroem o Mundo. No entanto, igualmente aos quarks, os geradores de conhecimento não aparecem no contexto político. Não existe partido político em prol da defesa da produção de conhecimento.


— Quem diria, a razão chega às portas do congresso e não a deixam entrar – diria Descartes.


Quando Galileu fundava em 1638 a física como uma ciência experimental em seu famoso livro Il Discorsi sue Due Nuove Scienze, não imaginava que em 1969 descobririam um outro lado confinado da matéria. O confinamento dos quarks traz um corte epistemológico a física de Galileu. A similaridade está em que a economia também não esperava haver um lado oculto à precificação. Coisas que tem valor mas não tem preço. É o caso da lei de Pitágoras. A sua mercadoria não é timbrada pelo cifrão.


Desta maneira a academia é identificada como os Quarks sem Causa. A maioria de seus produtos (palavras, equações, experimentos) carregam valor, mas não tem preço. Igual aos quarks são fundamentais, mas confinados. O seu mercado é indireto. Enquanto, uma salsicha pendurada em secos e molhados ganha valor e preço, a fórmula de Einstein a relacionar massa e energia fica no imponderável econômico.


O século 21 transtorna a noção de elementaridade. Enquanto os quarks existem mas não são observáveis galileanos, os geradores de conhecimento são infensos à economia. A diferença é que a física constata a presença dos quarks, enquanto a política desconhece a existência dos geradores de conhecimento. Os Quarks sem Causa não têm amparo nem na economia nem na política.


Portanto, o momento desafia a que se crie uma política de conhecimento capaz de integrar educação-ciência-inovação-economia. Algo que proteja os imaginários de um povo e permita com que ele se beneficie de sua produção de conhecimento. Contudo, essa percepção ainda está em estado embrionário. A academia ainda não conseguiu sair de seu casulo iluminista.


— Até quando esperaremos a academia sair de sua condição de Quarks sem Causa?

Nesta Terra Plana estamos. Os Quarks sem Causa estão inertes. A sua produção intelectual à mercê do capitalismo financeiro. Os jogos de ações e moedas preponderam diante da criação de imaginários. A aprisionar uma produção de cultura isolada da política e da economia. Uma sociedade sem antivírus em defesa a essa invasão bacteriológica financeira. O regime de usura toma o corpo da nação.


A função da academia não é somente saber e ensinar. A Era do Conhecimento exige que seja digna de um espírito. Assumir uma visão de Mundo além do marxismo e liberalismo. Cabe a academia renovar a época. Deflagrar a vitalidade do conhecimento.


O Brasil precisa fazer uma transição de fase de Serviços e Revendas para Sociedade do Conhecimento. A isto se chama revolução. Modificar o processo de vida de uma nação. Retirar o país do jugo da economia financeira. Em meio a estagnação econômica, neste ano de 2019, o Banco Central indicou que a rentabilidade dos bancos é a maior desde 2012. A questão está em como trazer um outro propósito. Oferecer um conteúdo capaz de mobilizar as massas a fazerem uma transição ao significado de valor.


A questão é até quando os intelectuais do Brasil constituirão uma geração de espectadores. Não serem atores da instalação da Sociedade do Conhecimento no país. Falta uma defesa ideológica pelo empreendimento em conhecimento. Enquanto os EUA investem 2,5% do PIB, o Brasil 0,4%. Valor inferior às registradas na Colômbia, Taiwan, Coréia, para citar apenas países emergentes que guardam alguma semelhança com o Brasil. O resultado é a perda de competitividade. Enquanto em 1980 a produtividade do trabalhador brasileiro era 40% do americano, hoje é 24%.


Até encontrar o caminho certo um grupo ou uma pessoa tem de se erguer de seus erros e ser testada em seus desafios. Cabe a academia brasileira encontrar seu rumo capaz de ajudar o país a sair de sua Idade Média de Serviços e Revendas. Guiar-se pela confusão até que o nevoeiro dissipe. O homem não é feito somente para ter dinheiro no bolso mas para despertar sua curiosidade e sabedoria.


O tempo dos Quarks sem Causa é chegado. Participar da construção do Estado. Distinguir esse novo caminho entre o certo e o errado. Tomar o futuro em suas mãos. Não apenas, para ler o Universo e sua ordem, como levantar uma bandeira conhecimentista capaz de animar milhões de pessoas politicamente inativas. A indústria cultural de um páis não pode ficar dependente. Possui luz própria para se colocar diante da conjuntura.


Estamos diante de uma chamada. O Brasil precisa se orientar. Sair do atual medievalismo e participar da semeadura da Era do Conhecimento. O palco da Era do Conhecimento está a espera dos Quarks sem Causa. A sua temática é uma questão de Estado. Defender a tese de que o projeto de Estado Nacional inicia pela defesa do Conteúdo Nacional. Em vez do palavreado econômico de dinheiro e investimento, cabe a academia mostrar que uma nação se constrói a partir da geração de espaço psicológico.


Por Melk

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